(o livro da loucura)

Tardia

Há dias
em que todas as culpas
vem à tona
e todos os meus feitos me assombram.

E dói
mesmo o mínimo abandono cometido:

os meus crimes
não ficam sem castigo.



Intro

Há um lugar em mim
- um lugar sem nome -
onde ninguém mais entra,
nem ele, meu homem.

Dimensão
de silêncio súbito
ciclone mudo,
suga
na velocidade da luz

e me faz surda.

Nesse nada
capto
todo o impacto
do que não espero.

Não bata na porta,
não perturbe,
- não adianta chamar -

Não queira molhar as mãos
no oceano dos meus olhos:
profundo, repleto
de abismos,
portais, atalhos.

Proibido ultrapassar:
não tem caminho de volta,

é como o fundo do mar:
há monstros marinhos à solta!



Destempero

Se não tive tranças
quanda era criança
tenho-as agora
quando temo o tempo
e os filhos de Cronos

- o relógio, o espelho -

Se antes costurava tramas
hoje as desteço e
lentamente, saio,

inconsequentemente
eu me desengano
e sempre me atrapalho

- até esqueci:
onde se põem as tremas -

mas tenho esperança
de voltar ao Espaço
numa dessas danças
de que tanto

falho.



Vocábulo

Palavra tão feia,
que sinto vontade
de botar-lhe freios,

chicotea-la
até que me obedeça

e vire magia,
maleável, mansa
e caiba mais certa
nas baias dos versos
de que me rodeio.

(se esse ficou manco
eu depois conserto)


Pilares da Criação

Nebulosa saudade,

nem sei do quê,
vontade doída de voltar

- devo ter vindo de alguma
estrela de perto de lá -

Há quem peça por campos de margaridas,
rios, ventos, praias escondidas...

Eu quero as visões de infinito
e o silencio da falta de ar.