(o livro da loucura)

Votiva de Nunca

Que, desavisadamente e sempre
chovam tristezas em sua nunca paz

e o poder do seu abraço intenso
nunca evite o transbordar da dor.

Que o gozo não se faça orgasmo,
a mulher dos sonhos
não te satisfaça em nada

e a abundância da mesa à sua frente
nunca vença a fome
ou cesse a sede que te mata.

Que nunca, nunca sintas gosto!

Que não te assustem as distâncias,
sempre vás em busca

e que nunca encontres.

Que, ao voltar de mãos vazias,
a brisa não te alivie as costas
da carga de ser ninguém

e o Sol se negue a aquecer,
em desconsolo,
a impotência do que foi em vão.

Amém.




Demônio do meio-dia

Aquela mulher
(velha conhecida nossa)
não o ensinou a sofrer de verdade:

toma de mim esse copo de Werther 
todas as lágrimas,
sina Tuareg, 
essa chuva grossa
de crueldade

e a poesia vai jorrar dos cortes
imensos incêndios, 
rios de esquizofrenia, compêndios,

Anatomias da Melancolia
e até mesmo, para sua sorte,

A Grande Morte.



Cambriana

a lágrima é salgada
por saudade
do Oceano.



 
Acerto
 
Ao Menino Iluminado,
Lemuriano e quieto
que me visitava em sonhos
com a precisão dos números

(e em me seguir crescendo,
ele foi coroado,
até se adivinhar traído
pelo amanhecer dos filhos
que já me vieram
-fado- )

:

Quando por fim ouvir a minha voz pairando
entre o silencio do aborto e das motosserras:

- Anaximandro, Anaximandro, Anaximandro...

Encontre-me no ressurgir daquelas velhas terras,
ou do outro lado.